Carta ao Coronavirus




Esta é uma carta ao Coronavirus. Não sobre o Coronavirus, não sobre como se manifesta na economia, nem sobre como escala demasiado rápido o seu contágio. É uma carta saudosista, de apelos, de sentires e sobretudo de humanismo e de melancolia.

Coronavirus, tu sabias que antes de chegares a este mundo a vida era tão diferente? Nós não sabíamos o que era sermos privados de sair à rua, sermos privados de respirar o ar que nos rodeia sem uma máscara na cara. Nós não sabíamos o que é ter receio de viver, de ir ao supermercado, de ir ao restaurante.
Não sabíamos de todos os milhares de opções e de decisões a que seriamos sujeitos, ou das aceitações a algumas imposições que teriamos de acolher. Não sabíamos nada disto. Não sabíamos nem imaginávamos e como éramos felizes assim!

Desde que chegaste que não sabemos o que o futuro nos reserva. Vivemos numa esperança sem visão. Vivemos num presente onde planear não é real e onde apenas o sonho nos resta. Vivemos dias tristes. Não há como negar. Desculpa-me mas não vou ter aquelas conversas sobre o lado positivo, do "vai ficar tudo bem" e sobretudo do "quando isto passar, vou..." Epa, não. Estou fartinha de ter de ver o lado positivo, quando isto não tem nada de positivo. 
Tu sabias que as pessoas não ficaram mais humanas por isto? Não. As pessoas ficaram mais apagadas. Mais entristecidas. Por baixo das máscaras, que somos todos obrigados a usar para que não te aproximes demasiado de nós, já não há tantos sorrisos. As pessoas estão fartas, cansadas.
São já 8 meses de luta para nós, portugueses. Não é muito, nem pouco, é só demasiado. Sabias que durante estes 8 meses há famílias que perderam tudo? Que perderam casas, que perderam familiares, que perderam empregos, que perderam sorrisos e sobretudo que se perderam a elas próprias.
A desgraça que trouxeste vai muito além da morte física. Os que não tinham juízo ou inteligência, mantêm o padrão e estragam tudo o que os outros estão a tentar recuperar. Os que aguardam e acatam as medidas estão a cansar-se e a entregar-se à tristeza. Isto é tudo uma grande e valente merda. Sim, é isso mesmo que leste, Covid.

Até o direito de estar triste, em condições, nos tiraste. Porque não podemos despedir-nos de quem levaste de nós. Porque não podemos cair nos braços da nossa mãe, ou do nosso pai, ou do nosso melhor amigo e chorar porque isto nos deixa tristes, ou simplesmente porque estamos cansados. Sim, chega de ânimos, quando não trazes nada para nos animar. Temos de nos dar a oportunidade de ficar verdadeiramente tristes e abraçar isso. Chorar minutos, chorar horas. Chorar o que nos apetecer. Não nos prender a um "vai ficar tudo bem" ou a um "vai passar", porque o que sentimos hoje não vai ser esquecido. O que vivemos hoje não vai ser apagado.
Tínhamos uma história escrita para nós e tu vieste escangalhar isto tudo. Foi o que foi. E cá está, fizeste uma bela merda. 

O facto de nos relembrares da força que temos, da persistência, da coragem e resiliência, e sobretudo do poder de reivenção não apaga a dor que nos causas por nos eliminares os afetos fisicos. A oportunidade de nos vermos, trocarmos carinhos, de nos sentarmos à mesa e partilharmos uma refeição e três dedos de conversa de deitar fora, mas que tão bem nos fazia. Até isso, que era tão simples e tão valioso nos tiraste.
Podes esquecer. Não serás recordado senão pelo maldito vírus que nos tirou tanto. Que nos fez desaprender tanto sobre as maravilhas da vida partilhada com o outro. Por ti estamos bem é cada um por si e cada um no seu cantinho. Muitos de nós sozinhos, nas suas casas. Muitos de nós a morrer por dentro, com covid ou sem covid, com fome, com frio, com solidão.

Sabes? Estou triste e farta de ti. Estou mesmo. Não tenho vergonha de te dizer e dizer ao mundo o quanto me cansas, o quanto me irritas, o quanto me destróis. O quanto todos os dias luto para aceitar a porcaria de realidade que trouxeste para o meu mundo. O quanto mudaste a história que eu com tanto jeitinho escrevia. O quanto me magoaste por me obrigares a decidir optar pela saudade em prol da saúde. O quanto me cansas em me obrigares a mudar os planos todos os dias. O quanto me obrigas a viver sem planos. 

Não vejo a hora de morreres Covid. Para sempre. 
Porque hoje estamos todos tristes e fartos. E queremos ter direito ao nosso: "E viveram felizes para sempre", tal e qual como nos filmes da Disney.

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