Há um ano que faço a minha parte. E tu?



Dia 8 de Março de 2021. Faz hoje um ano que regressei do último voo que me foi possível e que "comemoro" 1 ano de teletrabalho. Isto faz-me pensar tanto. Sempre que me queixo penso na quantidade de pessoas que estão precisamente há um ano a lutar por nós. E nós, o que fazemos por elas? 

Eu fico em casa. Há um ano que fico tanto tempo em casa. Ainda que tenha mudado de casa (alguma felicidade no meio do caos), há precisamente um ano que a rotina é outra e que há dias em que a rotina não é nenhuma. Cá em casa há dias bons, muitos menos bons e alguns péssimos em que não ter acordado e ter passado logo para a semana seguinte parecia o cenário mais apetecível. Mas há um ano que nos hospitais os dias são sempre maus. Não há dias bons, a maioria são péssimos, e quando muito há menos maus. Há um ano que fico em casa e é assim que os ajudo. Não me expondo demasiado. Não expondo os de risco. Cuidando de nós os dois, de nós os três. Há um ano que fico em casa e que faço a minha parte.

Eu também choro e também sofro. Há um ano que a Saudade faz parte do meu vocabulário e que invade o meu coração diariamente. Choro porque me sinto sufocada. Choro porque estou cansada, saturada, porque tive um dia menos bom. Sofro porque estamos aqui apenas nós, longe de todas as nossas fortalezas e longe de quem também tanto precisa de nós. Há um ano que nos sacrificamos os três. Que também cometemos um ou outro erro no meio disto tudo, algum risco, mas sempre assim meio que medido e felizmente sempre sem impacto. Há um ano que me nego a tanta coisa, por mais que a minha vontade seja dizer "Sim" e contrariar o bom senso. Há um ano que o faço assim e que faço a minha parte.

Eu também me sinto saturada. Mais que saturada e cansada, sinto-me exausta. E não ando no meio da confusão e do caos. Mas andar num caos invísivel também cansa, sabem? Um caos interior, entre 4 paredes e de tão difícil gestão também. Também controlo ansiedades, e muitas vezes não as consigo controlar. Também me falta o ar. Nestes últimos meses tem sido tão mais difícil. Há dias em que o ar chuvoso nos suga o que nos resta da alma, e há dias que o sol nos ilumina este túnel tenebroso e nos mostra que temos força para continuar. Temos sempre força para mais um bocadinho. Há sempre alguém pior que nós, pensamos. Há um ano que há famílias a passar fome, sem empregos, médicos e enfermeiros que já nem sabem que dia é e quem são. Estamos todos meio que desfigurados. De corpo e alma. Estamos todos diferentes. Há um ano que o país mudou. A vida mudou. O mundo mudou. Há um ano que estamos na luta. Há um ano que eu luto e faço a minha parte.

Teletrabalho e Teleescola. Existe cá em casa. É nestas alturas que todo e qualquer trabalho é ainda mais desafiante. São horas em reuniões e muitas outras horas para trabalhar. No meio disto tudo o malabarismo de ajudar as crianças a não se sentirem ainda mais perdidas. E tanta vez que isto falha. Porque vamos admitir, estamos todos fartos de ler por aí mensagens positivas, que falam de heróis. Os verdadeiros heróis são apenas aqueles que nem tempo para chorar têm. Os de bata branca, verde ou azul. Não somos nós, não são os professores. Somos todos bastante esforçados e somos todos sobreviventes. Isso sim. Adaptamo-nos e aceitamos a mudança e temos todos dias em que nada resulta. Nem a relação com o trabalho, nem a relação com a escola. E temos dias que correm bem e nos aliviam. Mas o caos e as dificuldades são muitas. E neste ano, a dose foi dupla. Um ano de teletrabalho e dose dupla de teleescola. Não sou uma heroína, mas há um ano que faço a minha parte. 

Adiar planos. Há um ano que tanta coisa fica em stand-by. Colocámos o filme da nossa vida em pausa, e ele anda ligeiramente para a frente mas a um ritmo tão lento. Tudo parou. Nós também. Passaram já dois Carnavais, um verão sem festas e festivais, um dia de todos os Santos do inferno, um Natal e uma passagem de ano que a tantos confortou e a outros tantos devastou, e estamos quase a contar com duas Páscoas. E o que é que se deu? Nada. A malta inventa para caraças. Nesta fase da vida todos inventamos tanta coisa. Atividade física, jogos de tabuleiro, maratonas de Netflix e Hbo, refeições deliciosas. Somos todos pasteleiros, cozinheiros e subitamente inventores. A tropa manda desenrascar e a malta cumpre. Há um ano que todas as viagens pararam, ou foram canceladas. Há um ano que alguns sonhos não avançaram ou simplesmente ficaram à espera de dias melhores. Mas deixar de planear? Nunca. Deixar de sonhar é deixar de viver. E andamos aqui todos a lutar para sobreviver, certo? Há que manter sonhos, e planos. Há um ano que cá em casa conseguimos realizar um sonho e adiámos outros tantos. E há um ano que há planos e desejos que se tornaram tão mais vincados. Tão mais limpos e claros. Não é? Há um ano que pensamos menos em nós e mais em todos. E que planeamos assim, a fazer a nossa parte.

Eu faço a minha parte. E tu?







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