E tu, já amaste hoje?
Como todos os milhares de portugueses, a morte da Maria João Abreu chocou-me. Entristeceu-me. Mais uma vez foi "aquela" terapia de choque que nos vem colocar as prioridades no lugar. Dos milhares de publicações, notícias e entrevistas que vi marcou-me particularmente a homenagem do Bruno Nogueira. No meio da profunda escuridão que estas notícias nos trazem (e talvez por a ter lido mais de 24h após a tragédia) vi ali uma ode à vida.
Todos os dias somos confrontados com perdas. Na última semana a sétima arte perdeu tanto. O Paulo Gustavo e a Maria João Abreu eram tão bons. Tão cheios de vida. Tão cheios de amor. Tão cheios de humanidade. Traziam tanto às nossas vidas, arrancaram-nos tantos sorrisos. O Paulo e a Maria João para além de maravilhosos e exímios profissionais eram exemplos de vida que nos lembravam tão bem (e passo a citar o Bruno Nogueira) que "o trunfo maior que temos enquanto por cá andamos, é o de nos multiplicarmos em amor".
A morte mostra-nos o quão imprevisíveis todas as certezas podem ser. Mas mais importante que isso, no final do nosso dia, quando deitamos a cabeça na almofada, o que nos importa? Viver. Perceber que vivemos. Perceber que a vida é o hoje. Este momento. Ter a certeza que o hoje não foi efémero. Que não foi curto. Que conseguimos ser felizes. Que conseguimos sorrir e arrancar sorrisos. Sentir a paz de que o hoje foi nosso e que no fim do dia aquilo que nos une a todos é o mesmo: a capacidade de sermos humanos e de nos alimentarmos de afeto uns aos outros.
Na verdade, o que mais nos choca nestas mortes, para além da evidente efemeridade da vida, é que nos é arrancado e rasgado do peito, e da matéria de que somos feitos, mais um bocadinho de afeto. De amor. Porque a sensação de perda é sempre mais dolorosa quando provém de algo que nos deu sempre tanto conforto (fora ou dentro do ecrã). É inevitável pensar no quanto o mundo e as pessoas ficam mais pobres com estas perdas, mas não deveriamos também lembrar no que o mundo ganhou com a existência delas?
A existência de uma pandemia veio reforçar tanta coisa. Em mim reforçou-se a noção de lar e de amor. Que lar nao é necessariamente apenas um lugar, uma casa, uma terra. São muito essencialmente as pessoas. O lar torna-se o nosso lugar onde quer que elas estejam. O lar são corações. São corações que batem junto ao nosso. Ou que bateram, mas que continuam connosco.
No final dos nossos dias é isto que nos resta. É este legado que deixamos no mundo e nas outras pessoas. É esta a nossa marca: o afeto que partilhamos. O amor que distribuimos. O que fazemos e dizemos com amor, por amor. O que nos move, o que nos determina. No último dia (seja ele cedo demais ou na altura "certa") que não falte motivos a ninguém para se lembrar de nós.
Dito isto: Já amaste hoje?



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