Carta aos avós (que já não estão)
Queridos avôs e avó,
Já estamos em 2021, pois é. E parados há mais de 1 ano. Podem não acreditar mas estamos a viver uma pandemia. Lembram-se daquelas coisas que nos contavam que haviam ocorrido há 100 anos atrás e que as pessoas andavam todas de máscara ou panos a cobrir o rosto? Pois é... parece que voltou. E a situação não tem sido nada fácil. Mas também tem ajudado a descobrir e a reforçar tanta coisa.
Não há dia que não pense ou não me lembre de vocês, de formas diferentes, com recordações distintas mas sobretudo com o peso consciente de duas coisas: ser neto é das maiores sortes do mundo, e há tanto que eu gostava de vos contar, de vos mostrar.
Sabem, encontrei finalmente a Paz e o Amor. Talvez o meu verdadeiro lugar. O meu propósito. Quando partiram eu ainda tinha tantas dúvidas sobre tanta coisa, não era? Não era uma criança, mas ainda continuava errada e tão imatura sobre tanto nesta vida.
Aprendi que não há coisa melhor que a tranquilidade. A tranquilidade de um amor correspondido e cuidador. A tranquilidade de estar entre sorrisos amigos sem esperar nada em troca. A tranquilidade de que a amizade é tão forte como o sangue. A tranquilidade de se trabalhar num lugar onde sentimos que temos um propósito. A tranquilidade de continuar a sonhar, sempre a sonhar.
Aprendi que nós não somos o reflexo dos outros, mas sim o reflexo nos outros. Aprendi a não esperar para dar e a dar sem esperar de retorno. Aprendi que a aceitação é uma vitória e não uma derrota. Aprendi a ser paciente (ou mais paciente) e a controlar os impulso (vá, mais ou menos).
Aprendi a olhar e a aceitar a dor como um caminho. A preparação e a construção daquilo que somos. Humanos sempre tão pouco preparados para os sentimentos extremos (de perda, de dor, de alegria).
Aprendi que sonhos não são apenas sonhos. São miragens do que queremos e vamos construindo. São desculpas para a persistência e para aquilo que viemos fazer a este mundo: procurar sempre ser feliz.
Que saudades que sinto vossas.
Olho nos olhos dos mais pequenos que nos rodeiam e digo-lhes com frequência: "Abracem os vossos avós. Digam-lhes o quanto os amam, nem que seja ao ouvido, baixinho, apenas para vocês e eles ouvirem. Não tenham vergonha."
Disse-vos (e ainda digo) pouco o quanto vos amava (amo). Talvez não o tenha mostrado até na medida necessária. Mas amo. Amei. E amo todos os dias. E sinto a vossa falta todos os dias.
Acreditem, a vossa neta está bem. Está tranquila, e à sua maneira, é feliz.
P.S - A ti meu carequinha, um xi-coração apertado. Uma festinha na careca e uma beijoca no teu rosto leve e marcado, enquanto sorris para mim. A ti entreguei e continuarei sempre a entregar o meu mais puro dos amores.
Feliz dia dos avós. Aos que o céu já segura a mão, e àquela a quem ainda posso abraçar.
Feliz dia dos avós. Aos meus, e aos vossos. A todos.



Comentários
Beijinho.