Uma escolha ou uma renúncia?


Ora após meses a fio a dever-vos algumas palavras (sorte a minha que tenho noção da vida que levo e não vos fiz demasiadas promessas) eis que a vida me proporciona o isolamento obrigatório necessário para me dar algum tempo de dedicação a este cantinho.

Se há coisa que prezo no meu trabalho é ter a oportunidade de trabalhar com pessoas interessantes, muitas delas verdadeiras inspirações. Em momentos em que a conversa foge para um lado mais pessoal, o M. lembrou-me da importância de fazer escolhas na nossa vida que nos tragam sobretudo a paz que precisamos. Mas lembrou-me também que fazer estas escolhas significa sempre renunciar a algo e que tipicamente a renúncia é sempre mais impactante ou de maior dimensão.

Fiquei a pensar naquilo. Bateu-me, de facto. Faz demasiado sentido para nunca ter posicionado as coisas assim. Pensei também nas maiores decisões que fui obrigada a tomar e nas renúncias que fiz por cada uma delas. 

Lembrei-me então que cada escolha que fiz (seja com o coração ou com a razão) me obrigou a renunciar. Muitas destas renúncias foram calculadas previamente e outras apenas descobertas depois. A maioria das minhas decisões foi ponderada, foi segura (porque sou uma pessoa que durante muitos anos não fugia muito da zona de conforto), foi sempre a pensar nos outros e um tanto ou quanto em mim. Foram quase sempre tomadas com o coração (que toda a vida me andou para saltar do peito e da boca pelo amor que coloco em tudo o que faço).

Fiz demasiadas escolhas erradas, possivelmente. Ou então, talvez não. Sei que me custaram tempo, muitas delas saúde e outras tantas um pouco de amor (próprio, algumas das vezes). O caminho nem sempre foi o certo, nem sempre foi o menos arriscado ou o mais fácil e caramba, o que mais me custou foi a renúncia ao tempo de ser feliz, de estar em paz, de viver uma vida tranquila. Fiz tanta escolha, e tanta renúncia também.

Lembrei-me também que na nossa vida, no nosso caminho, não são apenas as nossas escolhas que contam, são as escolhas dos outros também. Estou na empresa onde estou porque me escolheram, e mutuamente temos escolhido permanecer. Estou rodeada de família que são como amigos e de amigos que são como família: a família porque foi escolhida para mim, a família que escolhi e me aceitou, e os amigos porque nos escolhemos. Certamente no caminho houve renúncias, para todos, mas na verdade o caminho que levamos é uma decisão comum e dá-nos a paz que merecemos e precisamos.

Poderiamos analisar ao detalhe cada escolha, cada renúncia. E cada resultado final. Tinhamos pano para mangas. Mas não me quero alongar mais. Não sou propriamente um exemplo de experiência imensa. Afinal, são apenas 35 anos, quase 13 mil dias, e mais de 300 mil horas de tempo de vida. De escolhas a cada segundo, a cada minuto. Parece muito mas é demasiado fugaz. Por isso, escolham bem meus caros e renunciem ainda melhor. No final do dia nem sempre deitaremos a cabeça na almofada de sorriso no rosto, mas uma coisa é certa, teremos paz. 

Saberemos que estamos cá, vivos entre decisões e renúncias, mas estaremos a viver. E que bom que isso é.

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