O medo, a solidão, a gratidão e a sorte andam sempre de mãos dadas.

Estamos no início de Outubro.. e dos doze textos para 2023, salta agora para os vossos olhos o quarto. Três meses para vos dar os prometidos restantes oito blogposts parece-me um desafio complicado sobretudo porque apenas vos quero dar a ler aquilo que a minha mente deixa escorregar para o papel (neste caso para o teclado) na urgência de ser partilhada. E claro, no meio dos meus dias em que impera a língua inglesa, faltam-me as palavras muitas vezes, porque o meu coração e a minha inspiração não conhecem outra língua que não a língua materna, o nosso tão saudoso português.

Quero falar-vos hoje um pouco hoje de sensações. Sem tema predefinido, sem ordem e quem sabe sem muito sentido. Mas quero partilhar com vocês linhas de pensamento que me ocorrem ao longo do tempo. Entre conversas com amigos, entre observações ou até mesmo apenas perdida pelos meus próprios pensamentos.

Quero lembrar-vos que viver é uma dádiva de variadas formas, mas também essencialmente uma missão. Uma missão cheia de desafios, de contornos desconhecidos e uma descoberta constante. Vejo cada vez mais a palavra gratidão espalhada pelas redes, as pessoas a mudar de vida para se concentrarem apenas no lado positivo das energias. Existe uma rede pré-estabelecida de que tudo tem que ser bom. Para termos uma rotina que não deve ser procrastinada, que devemos ser corajosos, que não estamos sozinhos e que o importante é cuidarmos de nós.

Quero desentupir estes canais que subitamente ficaram cheios de mensagens positivas para os vossos dias, para vos lembrar precisamente do quanto precisamos também do resto. Precisamos de nos sentir sozinhos, de nos propor a estarmos sozinhos. Afinal, na realidade, não estamos  todos um bocadinho que seja sós? Sempre que nos calamos ou fingimos ou mesmo quando fingimos sem nos calarmos ou quando apenas consentimos. Ninguém sabe ao certo quando, mas certamente estamos todos um bocadinho sós.

Claro, temos de agradecer e romantizar um pouco a vida. Ver a manhã como uma das maiores inspirações de sempre, que o primeiro café seja o melhor de todos, e compreender que a coisa mais comum tem sempre potencial para ser a melhor (pelo menos daquele dia). Agradecer o sol, quando há sol, a chuva, quando há chuva e todas as outras pequenas coisas que nos são certas nesta vida. Porque enquanto cá andarmos haverá sol e haverá chuva. 

Mas, haverão dias mais negros também. E temos de ser gratos igualmente por estes. Temos também de abraçar o desconforto, o medo, os problemas. Ninguém sabe realmente dos medos que temos, do que ja vivemos ou deixámos de viver por termos medo, da quantidade interminável de vezes que tivemos vontade de desistir ou dos dias em que imploramos por forças porque de facto não sabemos mais onde as ir buscar. No fundo, o medo é um bocadinho como a fé (seja ela qual for), tornando ambos próximos de serem inseparáveis. Não ha medo sem fé e esperança e não ha fé que não reacenda tantas vezes através do medo. 

Dos medos, podemos partir para os problemas e claro, mais uma vez cada um tem os seus. Cada um os conhece numa dimensão diferente. Dos problemas, desses muitas vezes surge o arrependimento. É importante aceitar que existem arrependimentos. Sobretudo do que não vivemos, daquilo em que decidimos não arriscar, de tudo em que o medo nos travou e talvez até porque deixámos passar demasiado tempo para conseguir concretizar. 

Demonstremos então um pouco de tudo isto uns aos outros. Enfrentemos os julgamentos, os preconceitos, as empatias, as coincidências, o que vier. Se há capacidade que nos foi dada que nos permite tanto, é esta. Demonstrar. Demonstrar através das palavras, dos gestos, da magia. Façamos um pouco de terapia a nós próprios e não procuremos mais fugas. 

Aceitemos que a sorte nos é dada mas que nem todos a têm. Podemos não ter sorte, mas coragem, sim, conseguimos todos ter, sem termos de carregar medidas exatas de mais ou menos entre nós. Tudo tem o seu tempo e esse tempo será certamente diferente para mim, ou para ti, mas é esse tempo que nos prepara para continuamos sempre a acreditar.

Acreditar que o medo, a solidão, a gratidão e a sorte andam sempre de mãos dadas.

A isto chama-se Vida. Abracemo-la, pode ser?

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