Deixar-se ir, jamais!

Todos os dias havia algo para deixar ir. E todos os dias ele não conseguia. Necessitava de uma rotina estupidamente feliz (ou nem por isso) para poder levar a sua vidinha simples e patética , como todas as vidas. Mas era feliz. Sentia-se feliz assim.
Em todos os lugares havia algo para deixar. Um suspiro, um olhar, um papel embrulhado. Ele tinha sempre dificuldade em largar. Em deixar acontecer, em deixar ir.

Tinha-se convencido que assim tinha de ser e que era a postura mais correcta a manter. Ser assim, agir de acordo com o que deveria ser o correcto. Ele era assim e gostava-se assim. Egocêntrico, firme, e sobretudo tinha todas as certezas do mundo dentro de si. Estava correcto sabia ele. Era assim que tinha de ser. Era assim que queria ser.

E ela chegou e afundou o mundo dele. As certezas tornara-se incertezas e todos os dias se interrogava sobre o mais correcto a fazer. Mas deixar-se ir? Jamais. Nunca se deixaria ir, mesmo entre dúvidas e incertezas, interrogações e pior, ameaços de totais entregas sentimentais.

Um dia, entre copos e cigarros perdeu a compostura. Encostou-a contra a parede, beijou-a e abraçou-a. Agarrou a mão dela e elogiou-a. Disse-lhe o quanto ela era perfeita e o quanto a amava hoje e todos os dias. Disse-lhe que queria ficar com ela hoje e todos os dias. E que queria deixar-se ir com ela, só com ela. Deixaram-se ambos ir e dormiram abraçados.


No dia seguinte ela queria mais, mas ele acordara novamente egocêntrico, firme e sobretudo com todas as certezas de que jamais se deixaria ir novamente.

Ela saiu e ele chorou.

Tinha-se deixado ir, e tinha sido demasisadamente feliz. E agora?

Comentários

eli disse…
e agora continua feliz :) *

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