Emejei contra o Covid-19: Dia 50



Conto hoje precisamente 50 dias de quarentena. 
Como devem calcular cinquenta dias significam que uma nova rotina já foi instaurada cá por casa. Rotinas para as semanas a dois e rotinas para semanas a três. O pequeno-almoço é sagrado e o treino também. Reinventei-me um pouco e treino 5 dias por semana. Estes 5 dias por semana muitas vezes são de atividade dupla (sim, porque ja é não só rotina como tradição as idas de bicicleta e caminhadas pelos campos da nossa humilde localidade). 
Das coisas que me tem tirado mais a paciência são as pilhas de loiça, tachos, panelas e derivados. Oh santa paciência, parece que saiem da toca e se reproduzem. Como é que sujamos tanto tacho e tanta panela? E limpar a grelha do grelhador? O peixe fresco grelhado é um petisco dos deuses, mas já vem com uma sobremesa envenenada: o esfregar da grelha. Cinquenta dias criam-te a rotina do dia da junk food, o dia do sushi, e trouxe o primeiro dia de caracóis (oh meu Deus que saudades e que consolo!)
Cinquenta dias fazem-te ter mais saudades. Mais que o normal. Muito mais. Mas fazem sobretudo que te preocupes mais, que precises mais de quem está longe e que queiras estar mais presente das poucas formas que ainda podes estar. Nestes cinquenta dias o momento mais feliz e mais díficil foi a comemoração das 60 primaveras da mãe. Estar a 2 metros dela, de máscara, com um bolo para que ela pudesse ter companhia na altura de soprar as velas foi um acto de amor, mas um acto de consciência total do quanto este vírus maldito mudou a nossa vida. Não poder abraçar a minha mãe foi no mínimo desesperante, mas o conforto é encontrado ao saber que ela está bem e saudável.
Cinquenta dias trazem impaciência também, o cansaço, a falta de sono. Trazem a substituição de uma rotina que tanto sentimos falta por uma rotina que teimamos em não querer aceitar que seja por muito mais tempo.


Cinquenta dias trazem saudades, trazem novas rotinas. As saídas de fim de semana ficam confinadas por aqui e com alguma leitura de rua para sentir o sol tocar na pele. Os copos do serão são tomados com a família/amigos pela noite fora e através de um ecrã. Vemos as "nossas" crianças por fotografias e videos e lamentamos o não podermos ver de perto o quanto crescem. Estamos longe, mas muitas vezes estamos mais perto. Impomos a nossa presença da forma possível para que não nos falte nada daquilo que ainda podemos agarrar. 
Cinquenta dias contaram com a comemoração da Liberdade, mesmo dentro daquela que nos foi retirada. Não podemos ir ao cinema, viajar no fim de semana e visitar a família, jantar em casa de amigos ou sequer estar demasiado perto de ninguém, mas ainda podemos falar sobre isso, sobre o que isso nos faz sentir. Podemos cantar à janela, correr pelo campo, ligar à família e dizer que isto é uma grande "merda" e que estamos saturados. Somos livres de fazer isto tudo, sem qualquer imposição ou pena de nos dizerem que já nem sentir podemos.
Cinquenta dias contam com birras de miúdos e graúdos, instabilidades do tempo e dos humores e das hormonas, mas também contam com a luta através da originalidade e do encantamento nas coisas simples.

Cinquenta dias em quarentena, isolamento social, e de recolha contam com muita introspeccção, muito auto-conhecimento. Cinquenta dias não mudam os sorrisos nem as lágrimas. Tornam-os mais intensos. Se choramos, choramos com vontade, se sorrimos, sorrimos de coração cheio e alma leve. Cinquenta dias trazem muita coisa menos boa e muita coisa boa, mas trazem sobretudo amor, muito amor.

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